
Este blog é uma tribuna livre de defesa dos espaços públicos em Belo Horizonte. Propositalmente, é inaugurado no mesmo dia (25/3/10) em que o prefeito Márcio Lacerda visita Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá e uma das maiores autoridades em qualidade de vida nas grandes cidades, defensor de uma bandeira que este blog sustenta: o pedestre é mais importante que o carro.


A situação dos passeios é curiosa. Os moradores não cuidam deles, pois são áreas públicas, mas se apossam deles quando precisam, como se fossem áreas particulares. O melhor exemplo é a construção civil, que transforma passeios em canteiros de obras e depósitos, como esta obra da Artecon, na Rua Campanha, Bairro do Carmo. Quando não é aço, é tijolo. Na cidade sem lei, a prefeitura não toma conhecimento.
O desrespeito ao pedestre é cultural. Na Praça JK (chamar de parque aquele espaço é um exagero), um evento ocupou e cercou uma grande área, mas não era o bastante: fechou também uma das pistas de caminhada. Por quê? Não era preciso, é só porque não se tem mesmo consideração pelo pedestre – nem pelo pedestre que faz caminhada. Informam-me que o "evento" é a transmissão dos jogos da Copa do Mundo, patrocinada pelo Coca-Cola, o que significa que ficará assim durante mais de um mês.
Algumas crianças a chamam de árvore cocozenta, outras, de árvores xixizenta. É a árvore privada da Rua Campanha. Um belo flamboyant, imenso, que ensombra a rua com seus galhos e folhagens. O tronco largo forma, com as raízes expostas, uma espécie de assento que acumula lixo e mau cheiro, daí o apelido que ganhou. Merecia estar em outro lugar que não o passeio, do qual só deixou um cantinho livre.


Esta obra, no fim da Rua Pium-í, quase esquina com Avenida Bandeirantes, envolve dois prédios, num dos quais morava o vice-presidente da República, José Alencar. Não dá para saber o que será feito, mas o tapume tomou grande parte do passeio. No ponto em que há um poste, quase nada sobrou para a passagem dos pedestres. Sem falar da caçamba.
Na Avenida Bandeirantes, o passeio aparentemente é enorme e o piso não é dos piores, mas se repararmos bem, não sobra espaço para o pedestre. Belas árvores frondosas, que enfeitam, dão sombra e oxigenam a selva de concreto, ocupam bem mais de um metro de largura. O projeto arquitetônico recuou o prédio, mas o recuo é ocupado por carros e motos, comumente mais do que na foto. E tem também lixo. É um bom exemplo de como o passeio é lugar para tudo, menos para o pedestre.
Quando eu falei de um passeio bonito estava me referindo a este, em frente ao Butiquim Mineiro, que recebeu cuidados de paisagismo, como se pode observar. Uma graminha simpática, bom piso e o toco de uma árvore transformado em canteiro, com flores delicadas. No entanto, só restou um cantinho para o pedestre passar, seguindo a guia, junto aos cactos. Os passeios da cidade estão cheios de tocos de árvores; árvores são cortadas, sabe-se lá por que, mas isso não se reverte em vantagem para o pedestre, porque o obstáculo continua ali. Se o distinto bar se mostrasse sensível à passagem, por exemplo, de um cadeirante, estaria perfeito.
Tem um argumento que é sempre levantado pelas autoridades para justificar as péssimas condições dos passeios: cuidar deles é responsabilidade dos moradores. Ou seja: se o passeio está ruim é porque o morador não cuida do pedaço que fica em frente à sua casa ou seu edifício. Acho que é um argumento ruim, porque significa que a prefeitura não tem nada com isso, quando ela é responsável pela aplicação da lei e, portanto, pela fiscalização, por eventuais multas. Como no Brasil a impunidade é a regra, fica por isso mesmo, como na foto acima, de um passeio na decantada Avenida Bandeirantes. É preciso mudar o esdrúxulo raciocínio: assim como é responsável pelo caminho dos carros, a prefeitura também é responsável pelo caminho dos pedestres. Ou somos menos importantes do que os carros? É obrigação da prefeitura garantir passeios livres para os pedestres, da mesma forma que garante o bom asfalto para os motoristas.
Este é um caso bastante comum nos nossos belos passeios. A árvore, protegida por uma alvenariazinha, ocupa mais da metade do passeio. O prédio, que certamente adora o verde, fez mais um canteiro de uns quarenta centímetros (em geral, esses canteirinhos no passeio são de um arbusto cheio de espinhos; por quê? Provavelmente para afastar os pedestres). Sobrou meio metro para o pedestre passar, espaço insuficiente, por exemplo, para um cadeirante. Ou para duas pessoas passarem ao mesmo tempo. Para completar, um monte de lixo. Por que o lixo não é colocado no asfalto, junto do meio-fio? Por que as lixeiras, que os belo-horizontinos prezam tanto, não são afixadas no mesmo lugar? Os carros não deixam? Neste caso, não faz muita diferença (a não ser emporcalhar a calçada), porque a árvore já impede mesmo a passagem, mas em muitos lugares é só a montanha de lixo que fecha o passeio.
Andar em qualquer rua de Belo Horizonte é presenciar uma série de desrespeitos ao pedestre. Nós é que já nos acostumamos e nem percebemos. Na Rua Pium-í, levei a câmara comigo e fui clicando, das piores às menores coisas, algumas até bonitas, mas ainda assim desrespeito ao pedestre. Esta, na foto abaixo, é das mais comuns: o passeio transformado em canteiro de obra.

Liberação da Granja Werneck ou Mata do Isidoro para empreendimento de alto luxo. VEjam em : http://salveoisidoro.wordpress.com/ 
Mais fotos de calçadas feitas pelo fotógrafo Ronaldo Almeida, na Avenida Amazonas, quase na Praça Sete. Elas mostram o caminho tortuoso das guias para deficientes visuais, obstruídas por carrinhos de pipoca. O que mostra mais uma vez que não basta um bom projeto ou uma boa lei, se não forem bem executados e fiscalizados. Fiscalização começa com conscientização da população da importância da guia para a mobilidade dos deficientes visuais. No entanto, como pedir consciência da população, se a Prefeitura é a primeira a desrespeitar a lei, obstruindo as guias com placas de propaganda, postes e abrigos de ônibus?

A orla da lagoa da Pampulha, na semana passada, foi cenário de um horror. Após uma preparação catastrófica - vide foto do Cristiano Trad - para o recebimento do desfile disney/nestlê, centenas de milhares de pessoas - números ainda polêmicos - foram para a região tentar ver a tal parada, e parada mesmo ficaram as pessoas. Esta gestão da prefeitura é de amarrar, digo, amargar.
Nosso blog recebe sua primeira contribuição fotográfica, do jornalista e fotógrafo Ronaldo Almeida. Não à toa a qualidade da foto é superior à usual deste blog amador. Eis seu e-mail.